sábado, 21 de abril de 2018

8 - A perfeição do amor (1 Jo 4,11-5,4) – Ler na Bíblia.


 O amor recíproco
Os versículos de 4,11 a 5,4 da primeira carta de João constituem a sesta dos sete pericopi na qual a carta pode ser sub dividida. Se trata na realidade da segunda parte de uma pericope mais extensa, que parte do versículo 3,23 e é estreitamente conexa ao texto que agora tomamos em consideração. Também para este trecho pode ser útil um esquema que pode escandir um tríplice desenvolvimento do texto: a um anúncio (4,11) fazem seguido de um momento de exortação para viver o que o anúncio propõe (4,21) e os critérios de discernimento afim de que o anúncio possa ser concretamente vivido, os quais ocupam os restantes versículos.
«Caríssimos, se Deus nos ama, também nós devemos amarmos uns aos outros» (4,11). Se trata de um tema muito caro para o autor da primeira carta de João: a recíproca interdependência entre o amor de Deus e o amor pelos irmãos. Notemos que, assim como em diversos outros passos da carta no qual é chamado à exigência do amor recíproco (1Gv 1,6-7; 2,5; 3,11; 3,23; 4,7, como também em Jo 3,14), também aqui a comunhão com Deus e com os irmãos não tem um sujeito nem como seu ponto de partida nem com seu ponto de chegada. A atitude que é recomendado em resposta ao amor de Deus por nós – amor que sempre nos precede – não é convite para amar por nossa vez a Deus, e nem simplesmente para amar o próximo. Isto significa que o coração pulsante de ágape (termine como o qual o Novo Testamento indica o amor desinteressado e oblativo) não é o amor de qualquer um para outros qualquer. Este sentido é certamente contido na ideia de ágape, mas não é este que deve ser levado à perfeição. Realmente, como faz notar Bruno Maggioni, na carta se fala muito de amor de Deus e de amor fraterno, sòmente em 4,21 e em 5,2 se fala do nosso amor para com Deus. Se diria que João receie aquele tipo de vida religiosa que se dirige diretamente a Deus sem passar através do concreto da praxe quotidiana .
«Se nos amamos uns aos outros, Deus permanece em nós e o amor dele é perfeito em nós» (4,12) e ainda mais adiante: «Nisto o amor alcança entre nós a sua perfeição: e temos plena confiança no dia do julgamento, porque tal como Jesus é, assim somos também nós, neste mundo» (4,17). A perfeição do amor é certamente possível, ou melhor, é a meta a qual tende toda a vida do discípulo, como nos recorda também São Mateus («vós, portanto, sejam perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste»: Mt 5,48), mas ela não consiste em levar a perfeição a capacidade de amar como qualquer um: isto de fato seria ainda fruto de um esforço pessoal. Perfeita deve ser ao contrário, a reciprocidade no amor, uma reciprocidade não fechada em se mesma, mas capaz de expandir-se sempre mais além, envolvendo no seu circulo de amor sempre novos irmãos e irmãs. A este propósito, estão iluminando as palavras de um autor do século XII, Riccardo di San Vittore, que no seu tratado sobre a Trindade escreve:
Pois bem, na caridade autêntica o Máximo da excelência lembra que seja isto: querer que um outro seja amado como o somos nós mesmos. Com efeito, no amor recíproco e ardente nada é mais precioso nem mais admirável do que o desejo que um outro seja amado do mesmo modo daquele que sumamente se ama e daquele que se é sumamente amado. Portanto a prova da caridade perfeita consiste no desejar que o amor do qual se é objeto seja participado.
Isto significa que é fundamental antes de tudo preocupar-se de ter feito todo o possível para que o próprio irmão possa crescer no amor. Muito ao contrário, se é excessivamente preocupados pelas próprias disposições pessoais do que pela benevolência para com o outro. Se sente, por exemplo, sugerir muito como princípio espiritual a máxima segundo o qual cada um deveria preocupar-se unicamente pela própria conversão pessoal, sem julgar os outros. Parece na realidade que o texto de 1Jo se leva para mais além: se é chamados de fato a preocupar-se pelo estado do próprio irmão não para libertar-se de um sentimento de culpa, ou para sentir-se justificados, para ter todas as contas saldadas, ou pior ainda, pela presunção de saber onde é bem que o outro se escorrega. A única razão que me pode levar a preocupar-me pelo outro é a consciência que o meu crescimento no amor e o do irmão dependem um do outro, ou melhor, um não si dá sem o outro. A ideia de perfeição apresentada no nosso texto não coincide por isso com uma pretensão de ser sem mancha, sem imperfeição, limites ou incriminações, e nem mesmo sem caídas. O amor verdadeiro, perfeito, corre sempre risco, comprometimento; se acolhermos o desafio de amar, antes ou depois o mínimo que nos possa entender é de sujarmos as mãos, se não até de feri-las. Então a perfeição não será nada mais nada menos do que a confiança de estender aquelas mãos sujas, feridas, e esperar com paciência e fidelidade que seja o próprio Jesus a lava-las e a curá-las através das suas próprias feridas: «pelas suas chagas nós somos curados» (1Pt 2,24).
«Ninguém jamais viu a Deus»: significa que não si pode pretender ver Deus por conta própria! A busca de Deus quanto mais é íntima, personalíssima, as vezes quase indizível, e muito mais deve ter um respiro eclesial. Só graças à profundidade do olhar de um irmão, de uma irmã, da própria comunidade «se conhece que nós permanecemos nele e ele em nós» (4,13). Este “permanecer em Deus” é descrito por João como real participação na própria vida de Deus Trindade, porque ela tem como seu término de no fato que «ele nos deu o seu Espírito» (4,13). O Espírito Santo, dom do Pai e do Filho, é portanto dado afim de que a própria íntima relação que lega as Pessoas da Trindade possa ser o princípio da nossa relação pessoal com Deus e da comunhão com os irmãos. Sem dúvida é a preciosa expressão «Deus é amor» (4,16), única pela sua gravidez em toda a Sagrada Escritura, para constituir o vértice da meditação sobre Deus ágape. Assim Bruno Maggioni comenta: com esta frase João não faz mais do que reassumir o quanto a história da salvação continuamente testemunha: Deus escolhe, perdoa, permanece fiel ao seu povo apesar das traições, e em Jesus Cristo se manifesta como amor que se doa e se deixa crucificar. A preciosa afirmação de João deve ser lida com toda esta densidade.
A participação na vida trinitária impede também de cair no risco de uma lógica “funcionalista”, a qual poderia conduzir a uma leitura não advertida do texto: tal lógica exigiria o amor pelo irmão como passagem obrigatória para alcançar o amor por Deus, come se fosse uma espécie de preço à pagar, necessário, mas de qualquer modo transitório, e uma vez alcançada a meta da comunhão com Deus, o relacionamento com o irmão não nos interessam mais. João afirma ao contrário com clareza que os dois polos, amor de Deus e amor pelo irmão, estão ou caem juntos: amadurecer no amor não significa utilizar um dos dois para conquistar o outro, mas acolhê-los ambos – e juntos – como dons gratuitos. Exemplificando, parece poder dizer então que é necessário passar de uma lógica funcionalista a uma lógica circular e de participação.
A bem ver, a própria estrutura do texto reproduz no estilo esta “circularidade em expansão”: o autor não teme repetir muitas vezes, mesmo em brevíssimas distância, os mesmos conceitos ou reformulá-los com palavras semelhantes. Já dentro dos poucos versículos da nossa pericope é possível localizar esta rede de contínuas notas e chamadas. No v. 4,12 se diz que «se nos amamos uns aos outros, Deus permanece em nós e o amor dele é perfeito em nós», logo reforçado no v. 4,15: «quem confessa que Jesus é o filho de Deus, Deus permanece nele e ele em Deus» e no v. 4,16: «Quem permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece n’Ele». A exortação ao amor recíproco, expressa em forma mais concisa nos v. 4,11 e 4,12, é especificada e ampliada nos v. 4,20 e 4,21, lá onde se mostra a contradição de quem diz amar a Deus que não vê, mas nutrindo sentimentos de ódio para o próprio irmão que vê. A mesma ideia em forma reversa é apresentada pouco mais adiante no v. 5,2: «nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus: quando amamos a Deus e observamos os seus mandamentos». Por último, a confissão de Jesus como Filho de Deus, condição para que Deus permaneça em nós (v.15), retorna no início do capítulo 5, onde vem integrado com o tema da geração de Deus: «quem crer que Jesus é o Cristo, nasceu de Deus». Enfim a «confiança no dia do juízo» (v. 4,17) constitui o caminho de acesso para aquela «fé que venceu o mundo» (v. 5,4) que sela a nossa testa. Se trata realmente daquele acontecimento que deveria fazer do fundo de toda a vida do cristão: o de uma confiança (parresìa) capaz de expulsar todas as vezes os temores que nos paralisam, de distanciar e relativizar os nossos medos, os nossos bloqueios, para que nos torne intimamente persuasivas, para usar as palavras de João da Cruz, que “no final da vida seremos julgados unicamente pelo amor”.

Para continuar a riflexão
Quais são as dificuldades concretas que encontro no caminho de acolhimento daqueles irmãos/irmãs com os quais sinto mais dificuldade em relacionar-me?
Quais os acontecimentos na minha vida de discípulo do Senhor que dizem o meu desejo de crescer no amor para Dio e para os irmãos? Quais os acontecimentos que contradizem este desejo?
Quais os temores, medos, rigidez que têm o poder de cansar o meu caminho de seguimento? Consigo entregar-lhe com simplicidade e confiança a Aquele que pode cuidar de mim?


7 – Fé, Amor, Discernimento (1 Jo 3,23-4,10) – Ler na Bíblia


Uma alegre notícia
O que existe no coração do Evangelho? O que é verdadeiramente notícia alegre para nós? No seu relato, o evangelista João traz esta palavra de Jesus aos discípulos, pronunciada na intimidade da última ceia: «Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos tenho amado» (Jo 15,12). O reconhecer ser amados incondicionalmente e gratuitamente pelo Senhor Jesus aparece ao amor recíproco e este se torna o espaço concreto no qual se verifica e si testemunha o próprio amor de Cristo. Esta troca de amor não é só uma experiência que somos chamados a fazer para viver como discípulos de Cristo. É um “mandamento” que o próprio Senhor dá como exigência fundamental da aliança, como empenho quotidiano de resposta à vontade de Deus. E é isto que permite aquela fidelidade quotidiana necessária para guardar em si o amor de Deus. Viver e guardar o mandamento do amor significa permanecer no amor de Cristo e através dele, abrir-se para o amor do Pai. Então João o recorda com estas palavras de Jesus: «Como o Pai me amou, também eu vos tenho amado. permanecei no meu amor. Se observares os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, como eu tenho observado os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor. Vos digo estas coisas para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena» (Jo 15,9-11). Aquele mandamento que Jesus dá ao discípulo, o amor recíproco como reflexo do amor trinitário, é o que conserva a vida do fiel, a enraíza na própria vida de Deus e comunica a alegria. É verdadeiramente o coração do evangelho.
João retoma tudo isto no capítulo 3 da sua primeira carta: «Este é o seu mandamento: que creiamos no nome do seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, segundo o preceito que nos deu. Quem observa os seu mandamentos permanece em Deus e Deus n’ele. Nisto conhecemos que ele permanece em nós: pelo Espírito que nos tem dado» (1Jo 3,23-24). As duas dimensões da “regra” do cristão, o conteúdo do mandamento (o preceito que o Senhor nos deu), se revelam como aspectos inseparáveis, um do outro, um se firma no outro, um complementa no outro: a dimensão vertical que se exprime e si atua na fé em Cristo e a dimensão horizontal, que se vive nos relacionamentos de amor recíproco na comunidade dos irmãos. O crer e o amar se compenetram e se tornam o ato fundamental com o qual o fiel testemunha Cristo.

Crer no nome de Jesus
Mas o que significa crer? O que significa amar? Crer não é somente adesão da inteligência a uma verdade revelada. João fala de «crer no nome do Filho», no nome de Jesus Cristo. Crer é entrar em comunhão profunda, numa confiança e num abandono total com Aquele que nos revela o próprio mistério de Deus, o seu amor por nós, o seu nome de Pai. Crer é entrar em relação com um “nome” que contém em si todas as promessas de Deus, com um olhar que nos manifesta o mundo de Deus. esta fé nos abre o conhecimento de Deus, um conhecimento que nos revela o nome oculto de Deus. Assim o exprime João: «Deus é amor. Nisto se manifestou o amor de Deus em nós: Deus mandou ao mundo o seu Filho unigênito, parque nós tivéssemos a vida por meio dele. Nisto está o amor: não fomos nós que amamos Deus, mas ele que nos amou e mandou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados» (1Jo 4,8-10). O nome de Deus é misericórdia, é ágape. Estamos como colocados diante da infinita luz que emana do rosto de Deus e que investe toda realidade criada, o mundo e cada um de nós. O esplendor do ágape nos revela quem é Deus. Mas não é uma luz inacessível, que diante da qual se permanece como mudos espectadores, incapazes até de pousar o olhar sobre este esplendor. Deus é amor porque «mandou ao mundo o seu Filho unigênito», «parque nós tivéssemos a vida por meio dele… como vítima de expiação pelos nossos pecados». O esplendor do amor de Deus nos envolve, nos atrai porque nos é revelado através do Filho, aquele que assumiu a nossa própria carne e ofertou esta carne pela salvação do mundo. Um dia Jesus disse a Nicodemos estas palavras: «Deus amou de tal forma o mundo que deu o ser Filho unigênito, para que todo aquele que nele crer não morra, mas tenha a vida eterna» (Jo 3,16). Deus é amor porque contém e cuida na sua infinita misericórdia de todo o mundo, e cada um de nós e isto para doarmos a vida e arrancarmos de toda forma de morte.
Acolher este amor em nós e transforma-lo em vida é crer no nome de Jesus. Mas isto nos revela também o que significa amar. Para o discípulo de Cristo amar não é antes de tudo um movimento horizontal que me abre para o alto, um ato de vontade benévola com o qual acolho o outro. Certamente o outro, o irmão é o ponto de chegada, o espaço no qual se realiza e toma forma o amor. João o recorda quando diz: «Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus: e quem ama nasceu de Deus e conhece a Deus. Quem não ama, não conhece a Deus» (1Jo 7,8). Mas João nos torna consciente que o amor, enquanto o próprio nome de Deus, pode ter só nele a fonte e a origem. Então para o discípulo amar é antes de tudo reconhecer esta origem e tomar consciência que é possível amar Deus e os irmãos só no momento no qual se descobre o amor que o próprio Pai em Jesus se dirige para cada um de nós. Não somos os protagonistas do ágape, mas só os beneficiários e os testemunhas: «Nisto está o amor: não somos nós que amamos a Deus, mas é ele que nos ama» (1Jo 4,10). O amor de Deus nos precede sempre, protege o nosso amor: ele é uma pobre resposta a esta infinita caridade que desce sobre nós.

O Espírito de Deus
Para permanecer radicados na vida do discípulo, a fé e o amor necessitam de um terreno estável e fecundo. E este é dado pelo Espírito de Deus: «Quem observa os seus mandamentos permanece em Deus e Deus nele. Nisto conhecemos que ele permanece em nós: pelo Espírito que nos é dado» (1Jo 3,24). A fé e o amor adquirem uma dimensão interior graças ao dom do Espírito que é a garantia, o sigilo da comunhão com Deus. Só quem se deixa penetrar pelo Espírito de Deus pode adquirir um olhar que vai além das aparências e além das ambiguidades da história. João nos coloca em vigilância sobre aquele que tenta apoderar-se da história, dos acontecimentos, do mundo e sobretudo do coração do homem para semear maldade e engano. Para João esta realidade que age de modo enganador na história tem um nome: «Este é o espírito do anticristo que, como ouvistes dizer, ele vem, mas ele já está no mundo» (1Jo 4,3). Dar a este espírito de engano o nome de “anticristo” significa tomar cuidado da radical ambiguidade com o qual ele age: não só se contrapõe a Cristo, mas assume como máscara o rosto de Cristo. Este é o engano mais perigoso porque utiliza o nome de Jesus para transmitir falsidade: tem falsos profetas que falam em seu nome e transmite um “espírito” de mentira que segue a lógica idolátrica do mundo. O seu fascínio é tão sutil a ponto de não permitir sempre um pronto discernimento. Isto é possível só mediante o Espírito de Deus porque só o Espírito desmascara o engano contido no anúncio do anticristo: e isto é esvaziar o próprio mistério da encarnação do Filho, a revelação de um Deus que toma a nossa carne para compartilhar em tudo a nossa humanidade e doarmos a vida de Deus: «Nisto podes reconhecer o Espírito de Deus: todo espírito que reconhece Jesus Cristo vindo na carne, é de Deus; todo espírito que não reconhece Jesus, não é de Deus» (1Jo 4,2-3). A humanidade de Deus é o grande escândalo que deve ser removido. Mas se Deus é sem o rosto humano, se Deus não se imerge nas viradas da história, então a fé se torna ideologia e gnose, um modo de pensar ou viver e não o encontro e a comunhão com a qual Deus tanto amou o mundo a ponto de dar o seu Filho. É uma tentação que atravessa toda a história do cristianismo e pode atacar e comprometer radicalmente a identidade do cristão. O verdadeiro lugar em jogo é a profissão de fé em Jesus Cristo vindo na carne. Esta fé, que é a base da regra do cristão, não só nos abre para a própria vida de Deus, mas se verifica e se atua no amor recíproco, gratuito e solidário. A carne de Cristo, a sua divina-humanidade, são a garantia do crer e do amar.

Para continuar a reflexão
Como discernir hoje, a partir dos nossos estilos de vida ou de certas lógicas através dos quais julgamos, o engano do “espírito do anticristo”? Quando se opera uma mundanização na vida do discípulo de Cristo e quando o evangelho se transforma em simples ideologia?
O que significa “crer no nome de Jesus” e como as escolhas quotidianas podem testemunhar esta fé?
Existe um real conhecimento do amor de Deus que nos precede e que funda os nossos relacionamentos fraternos? Na tentativa de amar um irmão ou uma irmã temos consciência que não somos nós os protagonistas do amor?

6 - Amar na verdade (1 Jo 3,11-24) – Ler na Bíblia.

 Da fé em Deus l’amore fraterno
O fundamento da nossa vida cristã consiste no dom que Jesus deu a sua vida por nós (cf. 1Jo 3,16). É o dom do Filho que confirma a eterna aliança entre Deus e os homens; uma aliança que para ser respeitada exige que os próprios homens por sua vez se doem a vida reciprocamente: nisto demostram serem irmãos e filhos de Deus.
João insiste sobre a íntima ligação que existe entre a nossa condição de filhos de Deus e a retidão da nossa vida moral, ou seja, a fidelidade ao dúplice mandamento da fé em Jesus e do amor fraterno. É da fé no poder do dom de Deus em Jesus Cristo que deriva a ação ética e não vice-versa. Se é verdade que a observância dos mandamentos permite permanecer em Deus, é ainda mais verdade e profundo que o que poderia resultar da obra humana é na realidade só o fruto do dom de Deus.
O critério para compreender se vivemos realmente como filhos de Deus, é a caridade fraterna fativa. Questa é a mensagem (1Jo 3,11) que os destinatários da carta ouviram “desde o princípio” e é a palavra que constitui a comunhão eclesial (1Jo 1,3). A alternativa à caridade é um outro princípio, o de Caim, que faz prosseguir a história humana em suceder-se de atos de violência e que, para quem se professa cristão, expulsa realmente da comunhão eclesial. As obras manifestam a verdadeira fé e a fidelidade de cada um, o ser de Deus ou do Diabo.
Siguamos agora, passo a passo, versículo por versículo, o pensamento de João.

Comentário
v.12 «Não com Caim, que era do Maligno e matou seu irmão»: o mandamento do amor recíproco é ilustrado por contraste através de um exemplo de ódio fratricida parte da Bíblia, Caim contra Abel. Na tradição bíblica Caim é o tipo de quem não crê, de quem se rebela contra Deus e de quem é avarento; aqui se faz o tipo de quem odeia. João exprime um juízo moral sobre os atos de Caim e sobre os de Abel o justo, que na epístola vem significativamente indicato só com la expressão “seu irmão”. Quem se deixa inspirar pelo Maligno é por sua vez homicida como Caim e espalha ódio dentro da comunidade cristã. O injusto se revela na inveja e no ciúme, acontecimentos mundanos que penetram muito nas comunidades cristãs e as deformam.
v.13 «Não vos admireis, irmãos, se o mundo vos odeia»: o mundo não somente “não conhece” os filhos de Deus, mas os odeia. Assim como Caim odiou Abel o justo, o mundo odeia os justos e os persegue (cfr. Mt 5,10-12). «Saibam que antes de vós [o mundo] odiou a mim» (Jo 15,18), Jesus advertiu os seus discípulos no seu longo discurso de despedida.
v.14a «Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos»: o autor liga a passagem da morte para a vida com o amor fraterno, que realmente é, prova e confirma: o amor pelos irmãos não é a causa, mas é o sinal que se possui a vida divina. Ao contrário, é come Caim, «quem não ama permanece na morte» (1Jo 3,14b). Esta passagem da morte do pecado para a vida divina é acontecido no passado através da iniciação cristã e no presente continua com os seus efeitos. Nesta breve afirmação da epístola ressoam as palavras de Jesus citadas no quarto evangelho: «Quem escuta a minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não será condenado, mas já passou da morte para a vida» (Jo 5,24).
«Porque amamos os irmãos»: o exercício da caridade fraterna é o sinal de riconhecimento que alguém é nascido de Deus (cfr. 1Jo 3,10; 4,7). Santo Agostinho sintetiza de modo luminoso: «Ninguém sonde os outros: cada um examine-se a si mesmo: se encontrar a caridade fraterna, esteja certo que já passou da morte para a vida». (Comentário da epístola  aos Parti, 5,10)

v.15 «Quem odeia o próprio irmão é homicida»: quem odeia não somente provoca a morte do irmão, mas é também causa da sua própria morte. Ele é suicida, porque destrói a vida divina que leva em si.

v.16 «Nisto conhecemos o amor, no fato que ele deu a sua vida por nós»: João  procede ainda por contraste: o ódio homicida de Caim contrapõe ao amor de Cristo que  oferece a sua vida por nós (cf. Jo 10,11.15.17.18). O gesto de Jesus que leva ao cumprimento a sua missão de Filho no Dom de si por amor é a fonte e o modelo do estilo de vida dos fiéis. O empenho ético se funda sobre estatuto originário dos fiéis, crentes no amor de Cristo porque o fizeram experiência: «conhecemos o amor». O amor “de Deus” que se derrama sobre quem observa a sua palavra (cf. 1Jo 2,5) e que se exprime tornando-nos seus filhos (cf. 1Jo 3,1), tem a sua fonte última em Jesus Cristo: é mediante Jesus Cristo que vem a nós a graça de dar a nossa vida pelos outros. O dom da nossa vida que fazemos aos irmãos participa da mesma oferta eucarística de Jesus. Com a seguinte diferença: se a oferta de Jesus é uma ação livre, para nós é ao contrário uma obrigação que prorrompe da nossa ligação com Jesus. Por isto «também nós devemos dar a vida pelos irmãos» (1Jo 3,16).
“Também nós”: é chamado o mandamento do amor fraterno formulado por Cristo: «amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado» (cf. Jo 15,12). João o trae logo depois uma aplicação prática no v.17. «Não precisa, de fato, ‘amar Deus’ e nem ‘amar Jesus’; precisa amar o outro com o mesmo amor de Jesus. O lugar do homem é o lugar de Deus. […] Amar o outro é amar Deus; atentar a vida do outro é atentar a Deus» (Y.Simoens).
A verdade da fé deve ser passada pelo cadinho da ação. O autor da carta, tomando logo um exemplo concreto de caridade fraterna (cf. 1Jo 3,17), exprime a realidade da fé, o que a torna verdadeira. Por experiência, sabemos que é muito fácil amar os irmãos de modo geral, enquanto é mais difícil amar o próprio irmão que está próximo de nós … Mas é justamente isto que cada um deve está atento.

v.17 «como pode o amor de Deus permanecer nele?»: se entendido como genitivo de qualidade, a expressão “amor de Deus” equivale a amor divino; se entendido como genitivo subjetivo, se trata de um amor que tem a sua fonte e o seu modelo em Deus, manifestado-se a nós em Jesus Cristo seu Filho. Se falta a obra concreta de fraternidade cristã, então o amor de Deus não pode permanecer em nós e também nós mesmos não podemos permanecer em Deus.

v.18 «Filhinhos, não amemos com palavras nem com a lingua, mas com os fatos e de verdade»: esta exortação está em ampla polêmica com os mestres do erro, os gnósticos do herege Cerinto, contra quem se lança a epístola. No sentido igualmente polêmico, se pode ler Gc 2,15-16: «Se um irmão ou uma irmã estão sem roupas e desprovidos do alimento quotidiano e alguns de vós diz a eles: ‘Vai em paz, aquecei-vos e saciai-vos’, mas não dás a eles o necessário para o corpo, que adianta?». O amor que se nutre só de palavras e de caráter abstrato e não se traduz em fatos, é pura hipocrisia, e revela a esterilidade da nossa fé. Comenta s. Agostinho: «Se ainda não estai pronto a morrer pelo irmão, etejas disposto a dar ao irmão um pouco dos teus bens. A caridade comove o teu coração, de tal modo que te faz agir não com vaidade mas com muita misericórdia; então a tua atenção se voltará sobre quem se encontra em necessidade. Se de fato não dás o supérfluo ao irmão, como poderás dar para ele a tua vida?» (Comentário da Primera carta de João, V,12).
«Na verdade»: na linguagem de João a expressão se relaciona à Ideia da revelação transmitida por Cristo e designa a ação que se inspira na verdade manifestada por ele. Verdade não é tanto o nosso reto conhecimento de Deus, quanto a fidelidade e a estabilidade do próprio Deus. Sobre esta verdade se funda a nossa fé e nesta verdade a nossa fé nos torna participantes.

v. 19a «Desse modo saberemos que estamos do lado da verdade e diante de Deus tranquilizaremos o nosso coração»: com a expressão “nascidos da verdade” João  tranquiliza os cristãos que cumprem o mandamento do amor (“Desse modo” equivale a “no amor fraterno”) de viver em comunhão com Deus. Pelo fato que nos comportamos retamente nos tomamos consciência que «estamos do lado da verdade», verdade que é a mensagem de Cristo escutada: «Quem é da verdade, escuta a minha voz» (cf. Jo 18,37).

v.20 «mesmo que a nossa consciência nos reprove»: O único modo no qual os homens podem ter uma consciência que não os condenem é observar os mandamentos de Deus, mas a nostra consciência conhece também o pecado, a fraqueza ou as inadvertências… No caso se a nossa consciência nos reprovar por qualquer pecado, não deixemo-nos  perturbar, porque Deus, o qual conhece tudo, dá um julgamento mais iluminado e justo do que aquele dado pela nossa consciência (coração). ReaImente, somente diante de Deus podemos encontrar paz: estar diante d’ELE purifica as intenções de tudo isto que nós chamamos “amore”.

v.20: «Deus é maior do que a nossa consciência, e Ele conhece todas as coisas»: o fato de que Deus conheça todas as coisas, também os desejos e os pensamentos do nosso coração (cardiognose divina), não toma um controle totalitário de sua parte, mas um senso de segurança para o homem para o reparo das reprovações do próprio coração e de todos os modos da sua mau consciência. Não devemos ter medo por causa disso: Deus é muito maior do que os nossos julgamentos mesquinhos. Na sua liberalidade, Ele está sempre pronto a perdoar. «O cristão repreendido pela sua consciência, não só confirma a se mesmo que Deus conhece também as suas ações de amor, mas edifica a sua confiança também no mar da compreensão e da misericórdia divina, benigna com todos» (R. Schnackenburg). Deus é maior porque é criador e juiz de todas as coisas; é maior porque conhece todas as coisas, mais precisamente o que faz o nosso coração; é maior  porque a nossa consciência, o nosso templo interior, é a sua imagem.
Mais uma vez, comenta magnificamente s. Agostinho: «Tu és capaz de escondere o teu coração aos homens, esconde-o a Deus, se podes. Como poderáis  esconde-lo a Ele, a quem um certo pecador, temeroso, confessou: ‘Onde encontrarei um rifúgio, longe do teu espírito, longe do teu rosto?’ Esta pessoa procurava um lugar para onde fugir e livrar-se do gulgamento de Deus, mas não encontrava. Onde não está Deus? ‘Se subo até ao céu, lá tu estás; se desço aos abismos, tu estás presente’ (Sl 138, 7-8). Para onde irei, para onde fugirei? Se queres um conselho, quando quizeres fugir dele, fugi para ele. Fugi para perto dele com confiança, e não se escondas do seu olhar: nada poderás fazer, enquanto não abrires para ele com confiança o teu coração» (Comentário, cit., 6,3).

v.21 «Caríssimos, se a nossa consciência não nos condena, sentimos confiança para nos dirigirmos a Deus»: se o nosso coração não nos dá o tormento da mau consciência, fica espaço só para a confiança, a parresía, isto é, o falar franco e sincero que exprime em ser bem sucedido na comunicação entre Deus e o nosso coração. Se nutre esta atitude nos relacionamentos com Deus quando se cultiva a oração, acompanhada no guardar os mandamentos de Deus e de um modo de viver conforme à Sua vontade. Podemos assim nos voltar para Ele com a forte convicção que Ele nos acolhe com amor e nos considera sempre seus filhos. A “plena confiança” é por isso determinata pela certeza do crente de ser atendido por Deus em Jesus Cristo: «Qualquer coisa que pedires em meu nome, eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. Se me pedires qualquer coisa no meu nome, eu o farei» (Jo 14,13-14; e cf. Jo 15,7; Jo 16,23-24.26).

v.22 «e qualquer coisa que pedimos a recebemos dele, porque osbervamos os seus mandamentos e fazemos aquilo que é do seu agrado»: A observância dos mandamentos demonstra o mútuo amor e a recíproca aliança entre Cristo e os seus fiéis. A fé e a caridade são inseparáveis, não porque a fé seja um ato dependente da atividade do homem, mas porque ela entra também no mandamento: «que creiamos no nome do seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros» (cf. 1 Jo 3,23).

Para continuar a riflexão
Pela Primeira carta de João é importante ser “da verdade”. Se vem da verdade se vive uma vida estando “da parte justa”. De onde provém os meus pensamentos, as minhas palavras e os meus gestos?
«A justiça é o primeiro caminho da caridade ou, como disse Paulo VI, é a ‘medida mínima’ dela, parte integrante daquele amor com os fatos e na verdade (1Jo 3,18), a qual exorta o apóstolo João. De uma parte a caridade exige a justiça e o reconhecimento e o respeito dos legítimos direitos dos indivíduos e dos povos. Ela se aplica na costrução da ‘cidade do homem’, segundo direito e justiça. Também a caridade supera a justizia e a completa na lógica do dom e do perdão. A ‘cidade do homem’ não é aprovada só pelas relações de direitos e de deveres, mas ainda mais e primeiramente da relações de gratuidade, de misericórdia e de comunhão. A caridade sempre manifesta também nas relações humanas por amor de Deus, ela dá valor teologal e salvifico a todo empenho de justiça no mundo» (Bento XVI, Caritas in veritate, 6). Advirto uma tensão em mim e na minha comunidade entre exigência de justiça e prática da caridade? As vivo interconnesse, ou oscilo entre uma suposta justiça e uma caridade superficial? A minha ação caritativa é orientata a ter uma incidência social, política, econômica trasformadora da ‘cidade do homem’?
«A parrésia se tematiza como liberdade da palavra na oração, como confiança que não admite dúvidas. […] A vontade de Deus aceita e cumprida forma também a oração, tornando-se o objeto. […] Assim como a caridade tem como fruto o “conhecimento de ser da verdade” (cfr. 1Jo 3,19), A obediência aos mandamentos tem como fruto o atendimento da oração» (A.Scarano, in Y.Simoens). Vivo a minha oração como diálogo livre e franco com Deus? Que espaço existe nela para a escuta acolhedora da Sua vontade?
A ágape exprime contemporaneamente o dom de si de Cristo a cada pessoa debaixo do sol, a compaixão humana pelo próximo na indigência, o amor que temos para com Deus e o amor que por primeiro Deus tem para conosco. Conheço todas estas dimensões da caridade? João exorta a confiar sempre na bondade divina e a ser perseverantes na observância dos mandamentos resunidos em um só: «Este é o mandamento: que acreditemos no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros… Quem observa os seus mandamentos permanece em Deus e Deus nele. E por isto reconhecemos que ele pemanece em nós: pelo Espírito que nos é dado» (vv. 23-24). Este único mandamento tem duas faces: a fé em Jesus Cristo, Filho de Deus, e o amor recíproco. São as duas dimensões da regra dos cristãos: a dimensão vertical, que se exprime e se atua na fé cristológica, e a dimensão horizontal, que se vive nos relacionamentos de amor recíproco na comunidade dos irmãos. Estou atenta a esta dúplice dimensão no meu modo de ser cristã ou sou desequilibrada sobre uma mais do que a outra?
Conhecer o amor recebido significa tomar consciência do amor que nos é dado. Recordar quer dizer “levar ao coração”. Se o coração recorda este amor, se tranquiliza. Portanto, conhecer e reconhecer o amor recebido nos traz antes de tudo paz ao coração e capacidade de amar. Sem conhecimento do amor não podemos amar: seria só um dever moral. Quanta parte tem nas minhas escolhas e no meu comportamento o desejo de corresponder ao amor recebido?
“Sim, Eu sinto, mesmo se tivesse na consciência todos os pecados que se podem cometer, andarei, com o coração despedaçado pelo arrependimento, a lançar-me-ei entre os braços de Jesus, porque sei quanto ele ama os filhos pródigos que retorna para Ele. Não é porque o bom Deus, na sua misericórdia preveniente, preservou a minha alma do pecado mortal, que eu me levanto e vou a Ele com confiança e amor”. (s. Teresa do Menino Jesus) Recordo a ação misericordiosa preveniente de Deus na minha história? Sei contar e testemunhar

5 - Nascidos de Deus (1 Jo 2,29-3,10)


 Gerados do Pai
«Se sabeis que Jesus é justo sabereis também que quem pratica a justiça, como Ele foi gerado pelo Pai» (2,29).
Segundo o esquema que nos guia, a quinta sessão em início em 2,29 no momento em que o Autor introduz o tema da geração do crente em Deus. Tal tema é o anúncio específico desta sessão, a palavra maravilhada sobre Deus que o revela como Pai rico e grande no amor (3,1); e o revela Pai atento e desejoso de estabelecer uma ligação estável com o discípulo fiel, que a tal manifestação vem constituido como filho.
O tema da geração não é porém isolado: é ligado a da justiça e os dois são postos em relação com a revelação de Jesus: quem pratica a justiça, estes como Jesus é gerado. Assim para o Autor da carta, o discípulo é aquele que conserva em se o desejo de ser justo conformando-se com a justiça de Jesus, como todo o capítulo 2 tinha expressamente sugerido e indicado: Quem diz que permanece nele (Jesus), deve também ele comportar-se como Jesus se comportou (2,6). Esta semelhança com Jesus manifesta ao discípulo a possibilidade de renascer filho mediante a fé e as suas obras, e isto mesmo pela possibilidade oferecida pelo Pai como dom: Quem nega o Filho, não possui também o Pai; quem professa a sua fé no Filho possui também o Pai (2,27).

Como Filhos de Deus
«Vejam que grande amor nos deu o Pai de sermos chamados filhos de Deus» (3,1a).
Enquanto a primeira parte da carta (1,1 - 2,28) era guiada pela simbologia da luz – Deus é luz e n’Ele não existe trevas alguma (1,5b) – nesta sessão o referimento principal é o amor do Pai que busca a semelhança e nos torna filhos. Vos tendes no início do capítulo terceiro um olhar admirado – quase um impulso místico – que possui uma abertura escatológica, só capaz de conter o desejo de Deus sobre nós e para conosco: «Carissimos, nós desde agora somos filhos de Deus, mas o que seremos ainda não é revelado. Sabemos porém que quando ele (o Pai) se manifestar, nós seremos semelhantes a ele, porque o veremos assim como ele é» (3,2).

Filhos, sem pecado, porque a unção do Santo permanece em nós
Com simplicidade nos agrada sublinhar estes três aspectos:
1.              Filhos. João nos diz antes de tudo que no coração de Deus não existe um pedido, mas uma oferta; para Deus não se trata de exibir um mérito, porque o seu amor é dom, é realidade pessoal e íntima para reconhecer, acolher e sentir. São Benedito - verdadeiro discípulo do Reino - exprime esta compreensão do Evangelho quando na sua Regra afirma que nada deve ser anteposto ao amor de Cristo, isto é nada deverá preceder, por importância em nós, respeito à percepção fontal de ser destinatários do amor divino. Crer então não é só conhecer que Deus existe e que se revela (ou conhecer o que revela), mas re-conhecer uma predileção e eleição, aquela do Pai, que protege, edifica, permite subsistir. Toda realidade é intrinsecamente filial. Esta é uma esperança que está escrita no profundo do nosso eu (por obra do Espírito Santo) e espera que se cumpra em uma comunhão vital: «Quem tem esta esperança nele, purifica-se a se mesmo, como ele é puro» (3,2).

2.              “nele não existe pecado”. Na Escritura o tema amartiologico (do pecado) tem uma notável importância. Deus vem ao encontro do homem e o liberta do mal e do pecado: «Vós sabeis que ele se manifestou para tirar os pecados e que nele não existe pecado» (3,5). A carta de João como as outras, não pretende colocar no centro a ação contra o pecado, mas quer mostrar com clareza o que impede a experiência espiritual: é o pecado que falsifica a relação filial. João neste capítulo terceiro sublinha a responsabilidade do discípulo: Quem comete o pecado, comete também a iniquidade, porque o pecado é a iniquidade. Não existe na carta uma explicação etiológica do enigma do mal mas se afirma que nesta luta contra o pecado (é o diabo que  é o inspirador) o discípulo fiel não está só: «Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo» (3,8b). Existe Jesus, o Filho, que precede os seus na luta e abre (vitorioso) a esperança da vitória. Mais uma vez emerge o tema do dom e do primado do seu agir.

3.              A unção do Santo e a Palavra em nós. «Quem é gerado por Deus não comete pecado, porque um germe divino permanece nele» (3,8). Com esta bela imagem da origem em via de crescimento na vida do discípulo, o autor da carta fala ao mesmo tempo de duas realidades distintas, mas por sua natureza comunicante: da não pecabilidade, entendido como resistência e luta com o espírito do mal e da Palavra, a qual, presente no coração sempre por meio do Espírito, cresce e se enraiza até levar o seu fruto. O Autor quer mostrar como a ação do Espírito é discreta mas eficaz: valorizando o pouco e o possível cria amigos de Deus, filhos reconhecidos que, como o Pai deseja, vivem pouco a vez – como acontece com o sábio desenvolvimento da natureza – aquela trasformação de si até à plenitude da própria identidade filial. O olhar é profondamente escatológico, mas não astorico ou banal; é ao contrário olhar frágil, mas convicto sobre a realidade de Deus que retoma o seu lugar no mundo. La pericope se encerra com a confiança: toda vez que se vê o amor fraterno entre os homens, esta visão do mundo se faz caminho de modo humilde mas eficaz.

 Para continuar a reflexão
O seguimento de Jesus nos toca no íntimo, tornando-nos responsáveis pela verdade de um percurso de purificação do pecado. Me interrogo então sobre o meu caminho, sobre os impulsos que me animam e sobre as fadigas que me reprimem. Procuro fazer com clareza, mesmo se a vezes isto me assusta e me embaraça. Me pergunto: quais as escolhas ou quais as não escolhas que faço na minha vida de fé? Qual o discernimento que faço sobre o que me aproxima e sobre o que me distancia do Senhor?

A Primeira Carta de João anuncia o amor “imenso” com o qual Deus ama a me e as pessoas que fazem parte da minha vida (em diversos níveis e graus) e enfim todos os homens. Do mesmo modo se o anúncio do Evangelho é sempre válido, é verdade todavia que em nós todos existe um esquecimento, quase uma dúvida presente no coração que afirma: eu não mereço a atenção de Deus, eu não mereço o amor de Deus, eu não tenho necessidade. A mesma dúvida grita em alguns momentos da vida: eu não sou capaz de amar gratuitamente, não vale a pena, não consigo empenhar-me para o bem e ninguém me merece. Cada um sente e vive esta voz de modos diferentes e com tonalidades diversas que trazem origem da própria história pessoal, das vidas familiares e relacionais. João nos convida a purificar o coração e a crer em Deus confiando na Sua fidelidade: ela é a rocha sobre a qual é possível fundar-se. Deus é confiável. A que ponto está o meu caminho pessoal cuidado para a aceitação do amor de Deus e para a gratidão que me põe em relação filial com ele?

Me interrogo enfim sobre as minhas disposições interiores e sobre como posso deixar-me trasformar por Deus na minha realidade quotidiana. Ponho um olhar sobre o terreno interior no qual cai a Palavra e leio os sinais da ação do Espírito a partir dos sinais concretos de confiança que concedo ao olhar de Deus em me?

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Sei que Deus me chama

Todas as irmãs são conscientes que o momento dos Exercício Espirituais representa para o Instituto um acontecimento de muita importância: é o próprio Deus que convoca a presença de cada uma, para que venha estar com Ele.

Nestes dias Deus atua com uma graça toda particular. O momento dos Exercícios Espirituais é parte integrante da formação permanente que o Instituto atua com muita atenção para que as irmãs consagradas vivam com alegria e com fruto, isto é, com uma autêntica consciência, a sua consagração secular.
Esses dias privilegiados feitos de oração intensa, de silêncio, de escuta atenta e profunda da Palavra de Deus, também nos ajudam a fazer um sério exame de consciência sobre o nosso modo de ser e de agir, portanto, não desperdicemos esse tempo de Graças. Deus espera de nós a correspondência ao Seu infinito amor.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Encontro de Coordenadores Diocesano da PPI em Teresina PI

Pauta da Reunião:
Acolhida,
Objetivo do encontro,
Apresentação dos participante através da técnica: Se Sal e Luz da Terra.

Mateus 5,                                              13 "Vocês são o sal da terra. Mas, se o sal perder o seu sabor, como restaurá-lo? Não servirá para nada, exceto para ser jogado fora e pisado pelos homens.

14 "Vocês são a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte.
15 E, também, ninguém acende uma candeia e a coloca debaixo de uma vasilha. Ao contrário, coloca-a no lugar apropriado, e assim ilumina a todos os que estão na casa.   16  Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus

O texto das Bem-aventuranças. Jesus usa três comparações: o sal, a luz e a lâmpada para nos mostrar o que significa ser cristão, ou, em outras palavras para apresentar o sentido da presença e da ação da comunidade cristã no mundo. A comunidade cristã deve ser “sal, luz e lâmpada”.

E Jesus disse: “Vós sois o sal da terra”. O sal é elemento fundamental para a vivência. O sal é feito para dar gosto aos alimentos; preserva, conserva os alimentos e lhes dá sabor humano. A palavra “insulso” ou “insosso” quer dizer justamente “sem sal”. Donde dizer “sal insosso” é o mesmo que dizer “sem sal”. Um paradoxo, como quis exatamente dizer Jesus aos seus ouvintes: “Se o sal perder o gosto...” 




O discípulo de Cristo que pelo mau exemplo de sua vida fosse a negação do espírito do Evangelho, e não transmitisse à comunidade o sabor dos ensinamentos do Divino Mestre, seria um sal “sal sem sal”. Não prestaria para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado por todos.
 O sal em sua função de temperar os alimentos dando o gosto justo implica não ser nem sal demais e nem sal de menos. 
Ele vem a significar, então que o discípulo de Cristo deve representar na comunidade o equilíbrio, o bom senso, a prudência própria de homem sábio. Não pode ser o homem dos excessos, dos radicalismos da esquerda ou da direita; mas o homem da harmonia e da tranquilidade da paz. E a Igreja como um todo, com esse tempero espiritual, concorrerá, para o equilíbrio do mundo, para que não haja guerras nem conflitos de qualquer natureza, e para que reine a justiça em todas as modalidades do relacionamento humano: na política, na economia, no bem-estar da comunidade.
E Jesus disse também: “Vós sois a luz do mundo”. Naturalmente aqui está um reflexo da grande luz da verdade e da santidade que é o próprio Cristo. Jesus é a luz do mundo. Ele disse: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida”. E Jesus é a luz que ilumina todo o mundo. A luz de Jesus não pode deixar de brilhar para iluminar a humanidade toda.
E Jesus disse: “Ninguém acende uma lâmpada para escondê-la debaixo de uma vasilha, mas para colocá-la em lugar alto, a fim de que brilhe para todos os que estão na casa”. Ninguém deve fazer o bem com a finalidade de ser visto. Seriam vaidade e ostentação que Jesus reprova em outro lugar do Evangelho. Mas, por outro lado, sua vida deve ser tão digna, tão pura e tão santa, que possa servir de luz para o caminho dos outros. Devemos fazer resplandecer em nosso rosto a luz de Deus.
 Quanto à luz, a primeira carta de São João diz: “Deus é luz”, porque sua presença ilumina a vida do homem, conferindo-lhe significado. A comunidade cristã é luz do mundo, porque testemunha Jesus e se torna desse modo, sinal que revela o sentido que Deus dá à vida. Ninguém vive sem a luz. A luz possibilita enxergar o caminho para andar, e ninguém caminha sem um sentido na vida.

E Jesus ainda disse: “Não pode ficar escondida uma cidade que está no alto de um monte”. Assim brilhará a luz dos cristãos no meio do mundo.
Por fim, a simbologia da lâmpada. Ninguém acende a lâmpada para coloca-la debaixo de uma vasilha. A comunidade cristã não pode se esconder nem se fechar caso contrário seu testemunho já não tem mais sentido.
É sal da terra, é luz do mundo, é cidade visível que fica no alto de um monte. Essas imagens utilizadas por Jesus convergem para a mesma direção: “o testemunho da vida a serviço dos outros”. Portanto, o texto deixa bem claro que a comunidade não existe para si mesma, mas em função dos outros, de toda a sociedade dos seres humanos.
A comunidade somente será sal, luz e lâmpada quando der testemunho de Jesus, vivendo o que ele proclamou nas bem-aventuranças.
O homem moderno pode descobrir, para além da linguagem e das ideias, que Deus se encontra na simplicidade da confiança pura. E a falta de luz no coração do homem é o que impede de chegar ao essencial da vida.


sexta-feira, 18 de agosto de 2017

6º Cap: “Adorar é Escolher a união esponsal com Cristo, pobre, obediente e casto” – Os Conselhos evangélicos–1 Pietro 3,13-17; 4,1-6

ADORAR É...
OS CONSELHOS EVANGÉLICOS
1 A vocês, esposas fiéis, eu digo para permanecer submissas aos vossos próprios maridos; assim, mesmo se algum deles não crê na palavra do Senhor, ao final poderá ser convencido por seu comportamento. 2  A maneira como você vive, pura e respeitosa irá convencê-los mais do que suas palavras. 3 Não se preocupe com a beleza externa, que consiste em jóias, roupas finas ou penteados refinados. 4 Seja bonita por dentro, em seus corações, com o encanto duradouro de um espírito gentil e tranqüilo, que é de grande valor aos olhos de Deus. 5 Esse é o tipo de beleza interior das santas mulheres do passado, que confiaram em Deus, permanecendo submissas a seus maridos. 6 Como Sara, por exemplo, que obedecia a Abraão, seu marido, reconhecendo-o como chefe da casa. Se você também seguir o seu exemplo, de autênticas filhas de Sarah, você fará bem e não terá nada a temer. 7 E assim também, maridos, de sua parte, vocês devem ser atenciosos para com suas esposas, com o respeito que merece um ser frágil e fraco como uma mulher. Lembre-se que é com sua esposa que você divide as bênçãos de Deus e, se não a trata como deveria, suas orações não obterão respostas prontamente. 8 Finalmente, eu digo a todos vocês: vivam em amor e harmonia, com compreensão mútua, plenos de amor fraternal, boa disposição de ânimo e humildade. 9 Não paguem o mal com o mal ou injúria por injúria, pelo contrário, orem para que Deus abençoe aqueles que lhes são contrários: a tarefa à qual somos chamados, e por esta razão Deus nos abençoará. 10 Diz a escritura: "Quem quer amar a vida e ver dias felizes, guarde a sua língua do mal e seus lábios de falar mentiras. 11 Afaste-se do mal e faça o bem, busque a paz e vá ao seu encalço. 12 Pois os olhos do Senhor estão sobre os justos e o seus ouvidos estão atentos a sua prece, mas o rosto do Senhor volta-se contra os malfeitores. 12 Porque os olhos do Senhor estão fixos em seus filhos, e os seus ouvidos atentos às suas orações, mas volta-se com raiva contra aqueles que fazem o mal.”
Há momentos em que somos chamados, de forma mais intensa, a ter os olhos fixos no amor para também podermos ser por nós mesmos sinais eficazes da vontade do Pai.                                             É para a Igreja, um momento favorável para que seja mais forte e eficaz o testemunho dos crentes. (Cfr. Misericordiae vultus No. 3)
O amor é mais do que uma expressão, é uma pessoa, é o próprio Deus que Cristo nos apresenta como o único "Senhor" em nossa vida, como o único caminho, verdade e vida. "Depois que se encontrou o Mestre e foi olhado por ele, a única coisa que realmente importa é segui-lo." Mas ele realmente chama cada um de nós a segui-lo? Ou seguir Jesus é um luxo reservado para os poucos privilegiados? Na verdade, quando ele passou pelas ruas da Galiléia apenas alguns o seguiram fisicamente: doze apóstolos, algumas mulheres como Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, Salomé ... Não será a mesma coisa hoje? Apenas os sacerdotes, freiras, religiosos, pessoas consagradas são chamados a seguir Jesus e estar com ele? Só eles têm a "vocação"? No entanto, se lermos atentamente o Evangelho, veremos que Jesus a todos pede para segui-lo. Não se volta a um pequeno número de eleitos, mas às pessoas que o seguiam (Lc 14,25) e à multidão convocada (Mc 8,34) quando proclamou: "Se alguém vem a mim e não odeia seu pai, sua mãe, sua esposa, filhos, irmãos, irmãs e até sua própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não toma a sua cruz e não me segue não pode ser meu discípulo" (Lc 14,26-27). Todos são chamados para ir atrás de Jesus, Ele é na verdade para todos "a luz do mundo" e todos são chamados a seguir a luz e a deixar-se iluminar por ela:. "Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida" ( Jo 8,12).
O Concílio Vaticano II colocou claramente em evidencia esta realidade profundamente cristã e universal do "seguimento" de Jesus. Isso recorda que, movidos pelo Espírito e obediente à voz do Pai, todos nós somos chamados a seguir Cristo pobre, humilde e casto para merecer ser participantes da Sua glória (LG 41a ).
Sim, é verdade que apenas alguns homens e mulheres seguiram Jesus fisicamente pelas ruas da Palestina. Mas Cristo os tinha escolhido  para que surgissem como símbolo, a parábola de um caminho que cada cristão é chamado a percorrer. O seu caminhar e estar com o Mestre faz entrever uma atitude interior que é desejada para todos: uma relação profunda de especial intimidade com o Senhor.
Portanto, somos chamados a entrar em um relacionamento de comunhão vital com Cristo: um relacionamento que por sua vez introduz na intimidade inefável que une o Filho ao Pai. "Seguir" Jesus, depois de sua ressurreição, não é mais ação física. O seguimento agora equivale a crer (João 8,12) e consiste no recíproco "estar", "morar", "permanecer" entre o Senhor e os discípulos. Os "seguidores" e discípulos são, agora, todos os crentes.
Esta é a nossa grande vocação. Cristo nos olha, nos ama e nos chama a segui-lo, isto é, para estar com ele sempre, para conhecê-lo profundamente, para estabelecer com ele um relacionamento de amizade e comunhão. Não é um sentimento passageiro, uma aventura entre muitas. Aqui se trata de  um "caminho" que abraça toda a vida, uma autêntica viagem na fé e no amor, na qual o próprio Cristo se faz "caminho" e também "Pastor" (Jo 14,4-6; 10,4 ); um caminho que faz sair da escuridão e introduz na luz; um êxodo interno da realidade efêmera para entrar, através da partilha do destino de morte e ressurreição do Senhor, na casa do Pai e possuir a vida eterna.
Como, então, seguir a Cristo? Vivendo como Ele vivia, como ele nos ensinou! Seguir a Cristo e imitá-lo torna-se, em certo sentido, realidades equivalentes, como ele mostrou na Primeira Carta de Pedro: "Cristo sofreu por vós, deixando-vos o exemplo para que sigais os seus passos" (1 Pd 2,21).             
A palavra que Cristo dirigiu aos seus discípulos no lago: "Siga-me", continua a ser um imperativo absoluto e incondicional dirigido a cada pessoa. Mas apenas alguns homens o acolhem com  empenho total e, como outrora, provoca neles um êxodo completo de si mesmo e daquilo ao qual estão ligados, para levá-los para uma nova realidade: o mistério da verdadeira vida, do novo mundo iniciado por ele. E isto concretamente, em uma plena adesão à sua pessoa, a sua palavra, e ao seu destino.
Se cada viagem é sempre uma aventura, uma viagem atrás de Jesus revela uma aventura de todo particular. É uma viagem arriscada e Jesus o diz com palavras claras. A quem lhe segue, ele coloca  condições particularmente exigentes. A adesão a Jesus comporta o total desenraizamento, a insegurança diária, sem olhar para os interesses  familiares, sem nunca olhar para trás com arrependimentos inúteis, como nos recorda o Evangelho de Lucas: "As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça ... Deixa que os mortos enterrem seus mortos; e você vai e  proclama o reino de Deus ... Ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o reino de Deus "(cf.Lc 9,57-62). É preciso estar prontos para perder também a vida (cf.Lc 14,26). Seguir um Mestre que está andando para morrer em Jerusalém significa, de fato, estar pronto para morrer com ele: "Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (Mt 16,24).
Jesus é exigente?  Sim, porque o amor quer tudo e não se contenta com meias medidas, de mediocridade e monotonia. Para isso, devemos nos perguntar: nós nos lançamos na aventura de seguir a Jesus, com todos os riscos que isso implica? Se descobrimos que somos amados e se temos em nós o amor, saberemos ousar tudo e nada nos parecerá difícil. O amor é capaz de fazer coisas malucas para a pessoa amada. A nossa ousadia será a medida do nosso amor.
Será ainda o amor que nos fará superar o medo do desconhecido. Se andamos  atrás de Cristo, onde ele nos  levará? Onde vamos acabar? O que Ele quererá de nós? O que vai fazer para nós? Quem realmente ama não faz perguntas: basta simplesmente ser guiado pelo amor. Abraão não sabia para onde Deus o levaria, Moisés não sabia, não sabia Pedro, nem João, nem Tiago, nem André... "Vem". A este convite, nenhum deles perguntou "onde?". No Amado, se pode confiar. O importante não é saber onde se está indo, mas com quem se está caminhando.
O Amor finalmente nos fará superar o medo de dedicação incondicional: o amor é para sempre.
A vida consagrada e os conselhos evangélicos
Cristo quando chama não apenas convoca, mas dá a força espiritual, a graça, para que respondamos à sua palavra. No consagrado, a única preocupação deveria ser agradar a Deus. A vida consagrada não consiste no cumprimento de certas regras ou no controle de si mesmo, mas em sondar o mistério de Deus.
A vida consagrada tem suas raízes no mistério de Cristo crucificado; é seguimento do Senhor segundo os ensinamentos do Evangelho, sob a orientação da Igreja.
Deus colocou a sua confiança em nós, assim como somos, com as qualidades e os defeitos presentes em cada um: Deus escreve certo por linhas tortas.
A consagração secular, como todas as outras formas de vida consagrada, compromete a pessoa a viver os conselhos evangélicos de castidade no celibato, obediência e pobreza. Mas o que são os conselhos evangélicos, e que sentido tem, hoje, para um homem ou uma mulher vivê-los? Se os conselhos evangélicos desaparecessem, a humanidade seria empobrecida. Eles são, de fato, um valor para a pessoa, como tal, mesmo no contexto cultural de hoje. Tocam o universalmente humano.
 Na esteira das Bem-aventuranças (Mt 5,3-12), os conselhos evangélicos são uma forma concreta através da qual a Igreja torna possível o seguimento de Cristo e a plena realização da pessoa, que é convidada a abrir-se ao amor para com o Pai, os irmãos, a criação.
A partir das Bem-aventuranças, e da sua perspectiva humanizadora é então possível compreender o significado verdadeiro e profundo de cada conselho evangélico:
- A castidade impele o indivíduo para a harmonia entre corpo e espírito para que o corpo seja uma expressão dos valores mais profundos que a pessoa escolheu para viver. A Castidade vivida no celibato pelo Reino é expressão da realidade interior de uma pessoa que orienta e empenha todos as potências do seu ser (física, afetiva, intelectual) para a realização do projeto de amor universal do Pai, ou seja, a construção do Reino . Reconhecendo a necessidade de amar e ser amado pessoalmente, com o voto de castidade, nos ligamos a Cristo com uma relação de amor esponsal.
 Liberamos, por isto, os nossos corações de tudo o que limita a adesão a Cristo para uma doação maior a Ele e aos irmãos.
Assim resume Paulo VI, voltando-se aos Institutos Seculares,  o sentido da castidade pelo Reino: "A vossa castidade testemunha ao mundo que se pode amar com o desinteresse e a inesgotabilidade que atinge o coração de Deus, e que se pode dedicar alegremente a  todos sem se ligar a ninguém, cuidando especialmente dos mais abandonados."
A pobreza cresce desenvolvendo uma prática saudável do uso da palavra suficiente.  A nossa sociedade pede constantemente para ter mais para ser feliz. O voto de pobreza chama a viver simplesmente a estar satisfeito com o que se tem e compartilhar com os outros. O voto não se identifica com o estar materialmente pobre, mas é empenho para viver uma vida sóbria, feita de moderação no uso das coisas e dos recursos da criação, na consciência de que a felicidade não depende do que você possui: esta é uma enorme liberdade!
Viver a pobreza significa viver a dimensão da partilha, da solidariedade e da sobriedade. É um educar-se para a capacidade de reconhecer o valor real de tudo, com atitudes que são um sinal de uma relação respeitosa e positiva com os bens da terra, superando as chamadas do consumismo, do interesse, do utilitarismo.
 A pobreza evangélica exige que a pessoa cresça  em desapego e se deixe interpelar por toda forma de pobreza que aflige os homens considerados irmãos, com os mesmos direitos e as mesmas necessidades materiais e espirituais. 
Paulo VI: "Sua pobreza diz ao mundo que se pode viver entre bens temporais, e se pode usar os meios de civilização e progresso, sem se fazer escravos de qualquer um deles. "
- A obediência nos chama para uma autêntica vida de oração. Como posso ouvir Deus que me fala se eu não tenho tempo para cultivar essa relação que eu considero ser a mais profunda de todas? A obediência me leva a prestar atenção a todos os aspectos do meu mundo e lembrar que, consagrando-me ao serviço de Deus, a minha vida não me pertence.  Viver a vida consagrada é uma aventura transcorrida servindo a um Deus extraordinariamente amoroso que permanece fiel e presente aos que respondem ao seu chamado. Sinto-me encorajada e abençoada pelo fato de eu ter professado (e renovo todos os dias na missa) os votos de pobreza, castidade e obediência dentro de uma comunidade de amor, e que não vivo sozinha. Rezo por aqueles que estão discernindo o chamado à vida consagrada, para que tenham fé e confiança para se render incondicionalmente à vontade de nosso amadíssimo Deus por toda a vida!   Viver a obediência é viver a relação com o Pai, fazendo-se disponíveis para buscar e realizar o que é agradável a Ele. O cristão se põe a seguir a Cristo e como Cristo se faz atento para entender o que o Pai deseja. A obediência vivida na consagração secular implica uma busca contínua dos métodos e instrumentos que permitem ser uma parte ativa na construção do Reino e essas ferramentas são principalmente: a formação continuada, o confronto com a Palavra de Deus e a voz da Igreja,  a atenção aos sinais dos tempos, a abertura do coração às necessidades do mundo e dos irmãos nas pequenas e grandes realidades da vida.
É sempre Paulo VI que resume o sentido de obediência para os Institutos Seculares com estas palavras: "A vossa obediência é uma expressão de vossa disponibilidade ao Pai que reconheceis  presente nas diferentes circunstâncias da vida, e testemunha ao mundo que se pode ser feliz permanecendo totalmente disponível à vontade de Deus”
Perguntemo-nos:
  A cultura em que nos movemos de alguma forma permeia o nosso ser; ou pelo menos tenta influenciá-lo profundamente.  Deve-se, portanto, sempre se perguntar sobre as escolhas fundamentais, que não são feitas uma vez por todas!
 Os restolhos, o ''homem - velho ', nós o trazemos dentro de nós, por isso é muito fácil, na prática, encontrar compensações ou pequenos apegos às coisas materiais ou às pessoas.
 Somos conscientes de que as decisões aparentemente sem importância, arriscam desviar-nos dos conselhos evangélicos?
  O que eu penso e como vivo os votos de pobreza, castidade e obediência?
                  
“Não esqueçais de que na PFF  estais para alcançar a perfeição cristã e,  portanto, [...] deveis consagrar totalmente a vossa vida ao serviço de Deus mediante o compromisso de observar os três Conselhos  evangélicos (votos). Não vos enganeis, filhas minhas, para observar o que prometestes aos pés do altar, se minuto a minuto não vos dais à grande obra da vossa santificação e se não  empenhais na oração e trabalho, pensamento e ação.
Quem pretende viver as próprias comodidades, o prazer do mundo e nunca entrar em conflito com ela, sempre pronto a ceder e desistir dos seus deveres para não desagradar aos  parentes, amigos, etc., trai o ideal e a si mesma.
Porque esta é a advertência de Jesus Cristo no Evangelho: "Aquele que não odeia seu pai e mãe não é digno de mim "e ainda:" Vocês não podem servir a dois senhores..." com aquele que segue.
A vossa liberdade quase incontrolada, o estar só entre os perigos do mundo exige de vossa parte o perfeito domínio de vós mesmas, a mais alta e fervorosa fidelidade ao ideal abraçado, pronto a tudo sacrificar, tudo fazer para a sua plena realização. "(VB 220)
"Os santos votos são a síntese da nossa entrega total a Deus. Com estas santas amarras nos tornamos esposas Dele, e Deus torna-se o Senhor absoluto de todo o nosso ser, ou seja, da nossa mente, do nosso coração, do nosso corpo.
Minhas irmãs, viver esta vida celestial no meio do mundo, é um grande dom de Deus à alma.
E nós recebemos esta graça que só Deus, amor e vida, podemos, nos seus mistérios de amor, dá-la às suas amadas criaturas.
Para corresponder a esta grande graça, para viver como a nossa Regra quer, para viver esta vida celestial como a esposa de Deus, no meio do mundo, precisa-se do nosso sangue.

Precisam-se da constante doação do sangue de nossa mente, o sangue do nosso coração, o sangue do nosso corpo também, na observância dos santos votos. Devemos apertar essas amarras, de forma cada vez mais firme, até que elas estejam impregnadas de sangue. Só então seremos verdadeiramente esposas de Deus, e Deus com o seu amor divino e com o nosso formará a nossa união com Ele. "(VDA II, Santa Páscoa 1948).